A
alcunha boca do inferno foi dada a Gregório por sua ousadia em criticar a
Igreja Católica, muitas vezes atacando
padres e
freiras. Criticava também a "cidade da Bahia", ou seja,
Salvador, como neste
soneto:
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- Tristes sucessos, casos lastimosos,
- Desgraças nunca vistas, nem faladas.
- São, ó Bahia, vésperas choradas
- De outros que estão por vir estranhos
- Sentimo-nos confusos e teimosos
- Pois não damos remédios as já passadas,
- Nem prevemos tampouco as esperadas
- Como que estamos delas desejosos.
- Levou-me o dinheiro, a má fortuna,
- Ficamos sem tostão, real nem branca,
- macutas, correão, nevelão, molhos:
- Ninguém vê, ninguém fala, nem impugna,
- E é que quem o dinheiro nos arranca,
- Nos arrancam as mãos, a língua, os olhos.
Por tal motivo, entre outros citados na sua biografia, como sua
poesia pornográfica, os quais fizeram de Gregório um poeta considerado
"rebelde" que, apesar de ser um clássico, hoje ainda muitos consideram
também um
poeta maldito, ele se torna o primeiro poeta do Brasil que poderíamos, de certo modo, definir desta forma.
Em 1831 , o historiador
Francisco Adolfo de Varnhagen publicou 39 dos seus poemas na coletânea
Florilégio da Poesia Brasileira (1850 em Lisboa).
Afrânio Peixoto edita a restante obra, de
1923 a
1933,
em seis volumes a cargo da Academia Brasileira de Letras, reunidos nos
códices existentes na Biblioteca Nacional e na Biblioteca Varnhagem, do
Ministério das Relações Exteriores, exceto a parte pornográfica que aparecerá publicada, por fim, em
1968, por
James Amado.
A sua obra tinha um cunho bastante satírico e moderno para a época, além de chocar pelo teor erótico, de alguns de seus versos. , em
1968, por
James Amado.
Entre seus grandes poemas está o "A cada canto um grande
conselheiro", no qual critica os governantes da "cidade da Bahia" de sua
época. Esta crítica é, no entanto, atemporal e universal - os "grandes
conselheiros" não são mais que os indivíduos (políticos ou não) que "nos
quer(em) governar cabana e vinha, não sabem governar sua cozinha, mas
podem governar o mundo inteiro". A figura do "grande conselheiro" é a figura do hipócrita que aponta os
pecados dos outros, sem olhar aos seus. Em resumo, é aquele que
aconselha mas não segue os seus preceitos.
Perto de seu fim, Gregório de Matos expressou culpa e arrependimento
no que concernia a sua relação com a Igreja Católica. Através de suas
obras "
Buscando a Cristo" e "
A Cristo N. S. Crucificado",
onde procura demonstrar "a insignificância do homem perante Deus", onde
se percebe, de sua parte, a consciência nítida do pecado e a busca do
perdão. Nestes momentos de pungente arrependimento, Gregório explicita
seu conhecimento religioso, contrastando as ideias de Deus e de pecado,
opostas e, ao mesmo turno, complementares: Deus, ainda que detentor do
poder de condenação das almas, permite claramente a esperança do homem
em se salvar pelo Seu perdão, em virtude de Sua infinita misericórdia e
bondade.
O poema "Buscando a Cristo" incluído em "Obras Completas", organizadas pela
Academia Brasileira de Letras, todavia, é objeto de polêmica sobre a sua real autoria. Angel Salcedo Ruiz, num capítulo do tomo III de
La literatura española, 2ª Ed., Madrid, 1916, relata a atribuição ao poeta colombiano
Juan Manuel García Tejada, falecido em 1845, cujo o poema em espanhol tem o título "A Jesus Crucificado". O mesmo autor, contudo, menciona
Menéndez y Pelayo (
História de la Literatura Hispano-Americana)
que disse sem precisar ter lido o poema em obra anterior a García
Tejada. Outros escritores em língua portuguesa que se ou lhes foram
atribuídos como autores do poema foram o Padre
Manuel Bernardes (que está de acordo com a versão espanhola) e um Doutor Manuel da Nóbrega (citado por Inocêncio Francisco da Silva em
Dicionário Bibliográfico Português,
tomo 6º, pg. 69). Segundo Clóvis Monteiro, que reuniu as informações
mencionadas nesse parágrafo, "Tudo faz crer, pois, que não é Gregório de
Matos o autor desse soneto".
Segundo Valentin (2013), as primeiras representações da
homossexualidade na literatura brasileira das quais se tem conhecimento
estão em alguns poemas satíricos de Gregório de Matos.
Referências
- Gregório de Matos. http://www.academia.org.br.
- "Apresentação", Fundação Gregório de Mattos, Salvador, BA, BR: Secretaria da Cultura.
- Gregório de Matos e Guerra. Uma visita ao poeta, BA, BR: Centro de Estudos Baianos da Universidade Federal da Bahia, Secretaria da Cultura e Turismo do Estado da Bahia e Fundação Casa de Jorge Amado.
- Peres, Fernando da Rocha, Gregório de Matos e Guerra. Notação Biográfica, BA, BR: UFBA.
- MONTEIRO, Clóvis - Esboços de história literária - Livraria Acadêmica - 1961 - Rio de Janeiro - pgs. 60-62-67 a 70
- Cristiana Gomes (03 de março de 2008). Gregório de Matos Guerra (em português). InfoEscola. Página visitada em 26 de novembro de 2012.
- Sabrina Vilarinho. Gregório de Matos Guerra (em português). R7. Brasil Escola. Página visitada em 26 de novembro de 2012.
- Manuel Bernardes
escreveu sobre um versejador "que glossava motes (por dificultosos e
paradoxos que fossem), sem deter-se mais do que enquanto corria a mão
pelo bigode, torcendo-o na ponta..." - cf. João Ribeiro em O Fabordão
(1910), pg. 56 - citado por Clovis Monteiro em "Esboços de História
Literária" - Livraria Acadêmica - 1961 - Rio de Janeiro - pg.60
- Barros, Higino.
Gregório de Matos - Os Melhores Poemas do Boca do Inferno, o Primeiro
Poeta Maldito Brasileiro - Antologia. Organização de Higino Barros.
Julho de 1999. L&PM.
- VALENTIN,
Leandro Henrique Aparecido. Representações da homossexualidade em
poemas de Gregório de Matos. Littera Docente & Discente em Revista,
Nova Friburgo,
- v. 2, n. 4, p.1-10, 2013.
Carlos Reis, 24/04/2014